Hotel Fazenda em Urubici-SC é a primeira área do país a receber as araucárias da Tetra Pak

(foto: Apremavi/divulgação)

Observatório de Justiça e Conservação

 

A Fazenda Santa Bárbara, com 155 hectares de área, está no coração da Serra Catarinense e faz divisa com o Parque Nacional de São Joaquim. O local, que futuramente abrigará uma pousada, acaba de se tornar um modelo brasileiro de recuperação da Mata Atlântica, vegetação dizimada no estado. Um dos ecossistemas mais ameaçados na região é o da Floresta com Araucária, com apenas 3% de remanescentes na área de Santa Catarina. Um projeto lançado pela Tetra Pak e a Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) pretende reverter o processo de devastação.

Segundo Miriam Prochnow, uma das fundadoras da Apremavi, o projeto é inovador porque “a empresa coloca os compromissos de se tornar carbono zero na mesa e a forma que ela faz isso não é ir no mercado de carbono e comprar créditos, mas agir”, pontua.

A empresa não investe apenas no plantio da araucária, mas na recuperação das Florestas com Araucárias. Embaixo dos altos pinheiros, como também é conhecida a árvore, estão várias outras espécies que compõem este ecossistema. 

Na fazenda que serviu de piloto do projeto, 52% da área era coberta por pastagens, o que evitou ao longo dos anos a regeneração natural da mata. Com planejamento técnico da Apremavi, foram plantadas 40 mil mudas de espécies nativas como a goiaba-da-serra, erva-mate, bracatinga, uvaia, imbuia, aroeira-vermelha, entre outras. As árvores vão proteger as seis nascentes presentes na propriedade, além de contribuir com a proteção e recuperação da biodiversidade local.

De acordo com o proprietário da área, Giem Guimarães, investidor do turismo ecológico em Urubici, sua atitude pode servir como exemplo para o setor. Curitibano, Guimarães faz referência a um nome conterrâneo seu e símbolo da proteção da floresta. “A Tereza Urban dizia que as nossas florestas com araucárias são ‘verdadeiras catedrais’, um presente único da natureza que precisa ser preservado para as próximas gerações”, recorda ao citar o trabalho feito pela ambientalista e jornalista brasileira, sua mentora. 

O proprietário também é diretor-executivo e fundador do Observatório de Justiça e Conservação, organização que apoia o projeto mesmo antes dele existir. “O OJC nasceu da indignação de ver nossas últimas florestas com araucárias caírem e o poder público nada fazer de efetivo para evitar isso”, reitera.

Araucárias dão a largada para o net-zero

O projeto da Tetra Pak Conservador das Araucárias traz vantagens para todos os atores envolvidos: o futuro climático das populações humanas e naturais, o bem-estar e retorno financeiro ao dono do imóvel, além do incentivo às metas de compensação das emissões de carbono da empresa investidora.

Idealizado há cerca de um ano, o projeto viabiliza a proteção de espécies ameaçadas de extinção, como a onça-parda, o lobo-guará e o papagaio-charão. Este último chama a atenção de turistas pelas revoadas típicas desta estação.

O projeto também colabora com a proteção dos mananciais hídricos, que carregam o Aquífero Guarani na região, responsável pelo abastecimento de várias regiões de Santa Catarina. A iniciativa ainda contribui com a mitigação das mudanças climáticas, já que a presença de florestas ameniza efeitos extremos de chuva e estiagem.

Diretora de sustentabilidade da Tetra Pak no Brasil, Valéria Michel explica os motivos da escolha da empresa pelo bioma Mata Atlântica para desenvolver o projeto, que é estudado internamente desde 2019. “Os motivos de escolha desta área incluem a velocidade de armazenamento de carbono, efetividade da restauração da biodiversidade, necessidade de restauração de ecossistemas e proximidade com nossa cadeia de suprimentos”, conta Michel.

Além da satisfação pela prestação de serviços ecossistêmicos essenciais para a preservação da vida, os proprietários que participarem do programa também poderão receber uma compensação financeira por ceder parte da área para conservar a natureza.

Já existem alguns sistemas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) em Santa Catarina, área do plantio-piloto, assim como em vários estados do país. Dentro do programa, no entanto, o PSA próprio poderá ter a contrapartida de investimentos de empresas parceiras, como a Tetra Pak.

No primeiro plano, Wigold Shaeffer (Apremavi), Giem Guimarães e Fabricio Baumgarten (Fazenda Santa Bárbara). No segundo plano,  a equipe responsável pela plantação do primeiro lote de mudas nativas na área piloto do projeto (foto: Apremavi/divulgação)

 

A empresa investidora do Conservador das Araucárias conseguirá abater suas emissões de gases do efeito estufa através do projeto. O potencial de sequestro de gases da atmosfera por meio das estratégias de conservação pode chegar a 70 toneladas de carbono equivalente. “Em 10 anos, o objetivo é restaurar 7 mil hectares de Mata Atlântica, o equivalente a 9800 campos de futebol. A companhia também certificará 13,7 milhões de hectares, o que corresponde à área da Inglaterra”, adiciona Michel, da direção de sustentabilidade da empresa. 

É o que já está fazendo a Tetra Pak – maior produtora de embalagens longa vida do mundo – cujas metas alcançarão o net-zero [emissões zero] em 2030 e a mesma meta para toda sua cadeia de valor até 2050

Exemplo a replicar 

Com 35 anos de experiência na produção de mudas nativas, a Apremavi pretende reunir todos os interessados em fazer parte da iniciativa. Não só donos individuais de imóveis rurais, mas também em territórios coletivos, como em Terras Indígenas, faxinais e quilombos.

Outras empresas também podem se inscrever para receber um planejamento de restauração da Mata Atlântica. “O setor privado precisa apresentar seus projetos dada a emergência das mudanças climáticas”, aponta Prochnow. Na outra ponta, investindo ao mesmo tempo em conservação e em uma pousada rural na Serra Catarinense, Guimarães dá o caminho: “Entendo que é preciso mostrar à sociedade que os negócios e a conservação podem andar juntos”.

 

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